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17.7.07

Epigrama

E dizer que eu sem você sou que nem uma sobra no escuro.


Luciana Brandão ; às 10:39 PM ;
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8.7.07

Carol e eu - Parte 1

Espiou por cima do muro uma última vez. 'Só pra ter certeza, só pra ter certeza'. Ela continuava ali. Estava sentada de costas para ele, no capô do carro, fitando o céu. As pernas balançando. Provavelmente esperando por alguém. Espiou por cima do muro uma última vez. E dessa vez seria a última mesmo. 'Onde já se viu alguém daquela idade ficar espionando uma garota por trás de um muro?! Um absurdo, um completo absurdo.' Levantou-se, escorou os braços na parede de cimento e ficou a olhar para baixo. Ela continuava ali. As pernas balançavam, sua boca desenhava um sorriso. 'Acho que ela está ouvindo alguma música'.
Gostava de observá-la. Geralmente o fazia de longe, mas quando tinha a oportunidade de aproximar-se, aproveitava. Carol era da sua turma de química. 'Essa é nossa única semelhança', achava. Certa vez tomou coragem e a cumprimentou. Ela retribuiu com um sorriso. Sempre o sorriso. 'E que sorriso'. Se pudesse, faria de Carol a pessoa mais feliz do mundo, apenas para receber em troca o tal sorriso.
Agora ela balançava a cabeça, de um lado para o outro. 'Acho que é Jerry Lee Lewis', pensava Renato, 'ou Elvis, talvez'. Não que o garoto tivesse qualquer idéia do gosto musical de Carol, mas 'é só um palpite, é só um palpite'.
Dentro de cinco minutos seria três e meia. Às três e meia o time de futebol do colégio é dispensado do treino. Carol tinha ensaios de dança todos os dias, até as três e meia, mas de vez em quando essas aulas terminavam mais cedo. Então Carol ia até o estacionamento e ficava sentada no capô do carro, ouvindo música e esperando pelo Bica. 'Eu jamais ficaria com alguém que se chama Bica'. Renato nunca entendeu direito porque Carol ficava com ele, 'afinal de contas ela é tão simpática, divertida, bonita, inteligente, e ele tão panaca'.
Viu alguém se aproximando do carro. Bica. Então ele se aproximou mais, beijou-a, entraram no carro e foram embora.
Renato sentou no muro e continuou ali, fitando o cimento, as pernas longe do chão. 'Da próxima vez eu falo com ela, da próxima vez...'


Luciana Brandão ; às 3:15 PM ;
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1.7.07

Garotos

Cecile,

Me perdoa.
Eu passei horas pensando em uma maneira mais romântica, mais inteligente e menos sacana de começar essa carta, mas a verdade é que não encontrei nada melhor do que isso. Você sabe que eu não sou um bom escritor. Por tanto achei melhor começar escrevendo sobre o meu desejo mais sincero:
Cecile, me perdoa.
Me perdoa por ter mentido, por ter te enganado, por ter fingido ser alguém que eu não era. Por eu ter te dedicado poemas que não eram meus, por ter te dito frases que eu não havia criado, por ter te contado aventuras que não eram verídicas. Mas juro que tudo o que fiz não foi em vão. Na verdade eu tinha um bom motivo para fazer tudo aquilo que fiz, e por mais clichê que vá parecer, o motivo era amor. O teu amor, Cecile.
Porque você é linda. Você é linda, inteligente, alta e tem o mundo aos seus pés. Porque você anda sempre cercada de tanta gente, e, obviamente, de tantos homens. Porque você é muito mulher, Cecile. E para um garoto como eu te conquistar, a missão tornou-se impossível.
Acho que me apaixonei por ti na primeira vez que te vi. Assim como milhares de outros garotos que tiveram o prazer em poder te olharem. E me apaixonava de novo toda vez que me pegava pensando em ti. E no teu olhar, e nos teus lábios, e...
Então, só pelo fato de você ser tão deslumbrante, mas também porque eu tinha a certeza de que jamais poderia te conquistar através da minha beleza física, me dediquei a te estudar. E você viu que eu fui um aluno muito dedicado. Foi por isso, Cecile, que quando achei uma brecha pra chegar até ti, foi por isso que fiquei tão contente. E então jantamos uma, duas vezes. E você falava tantas coisas!
Você é uma mulher culta, Cecile. Você gosta de música clássica, você gosta de arte moderna, você estuda política e condena o marxismo. Você fala de Kubrick e de Kaufman e de um tal de Cameron Crowe. E eu, Cecile? O que sou eu? Eu sou só mais um garoto que fingiu saber de qualquer coisa pra te impressionar. Mas a verdade, Cecile, (e é a verdade que eu queria te contar através dessa carta) a verdade é que eu passei minha vida achando que Mozart havia cortado a própria orelha; que eu não imaginava que houvesse diferença entre socialismo e nazismo; que pra mim laranja sempre foi apenas uma fruta, ou talvez uma cor de vez em quando; que eu achava que Vanilla Sky era o nome de uma confeitaria. Você entende como eu me sentia na tua frente, Cecile?
Mas eu fingia ser grande conhecedor de todos esses assuntos pra fazer com que eu tivesse pelo menos uma chance, por menor que fosse, entre todos aqueles outros garotos que também te queriam. Eu sei que diante dos teus olhos eu fui apenas mais um, igual a todos os outros, e sei também que em um ano, ou menos, você já nem lembraria mais de mim. Mas eu sou melhor que eles. Eu não sou tão bonito quanto aquele loiro de olhos azuis, nem tão inteligente quando aquele teu colega da faculdade, não sou pintor, nem músico e também não sou poeta como vários outros. E todos eles te querem muito, Cecile. E aí é que está a diferença. Não espero que você entenda isso, muito menos que acredite em mim. Você sabe que eu te quero tanto quanto eles, mas mais do que te querer, eu quero a tua felicidade. Então se você me disser que jamais conseguirá ser feliz ao meu lado, eu vou ficar triste, magoado, mas vou aceitar isso e seguir em frente. Porque o mais importante pra mim é saber que você estará bem.
Mas agora, se você chegou a abrir esse envelope e leu todas as minhas palavras mal colocadas em uma carta inundada de sinceridade e de erros gramaticais, se você fez tudo isso e chegou até aqui, então é porque, nem que seja minúsculo, alguma coisa você deve sentir. E é levando em conta essa possibilidade de um sentimento recíproco teu, somente essa possibilidade, é que eu te peço: me perdoa, Cecile. Me perdoa e deixa eu ir até tua casa declamar “Hallelujah” outra vez, jurando que fui eu quem compus.

Com um amor que é todo teu,
Jeff.


Luciana Brandão ; às 3:27 PM ;
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